sexta-feira, 23 de junho de 2017

os olhos e a boca




que olho o olho espreita
dentro do teu riso?

que mandíbula se quebra
em tuas órbitas vazias?

) o trágico da tua retina
é o cômico da outra (

os olhos, tua cegueira,
tateiam as pálpebras

dentro da tua mandíbula
o riso mastiga os dentes.



| mahier, 23/06 |

* * * 

domingo, 28 de maio de 2017

gênesis





multiplicai-vos
enchei a terra e dominai
sobre todas as pernas que se arrastam.

(no sétimo dia,
dobrou os joelhos)



[mahier, 28/05]

* * *

sábado, 27 de maio de 2017

Babel




quarenta cadeiras
vazias para
godot:

montanhas-pedras
à espera de um sísifo,
quarenta:

umas sobre
as outras,
vazias:

a última
em queda livre

a primeira
fincada no chão.



[mahier, 28/05]

* * *

sexta-feira, 28 de abril de 2017

nas pontas dos dedos





ninguém conseguiu assomar ao sapato:

o próprio sapato


a fim de alcançar, no topo do osso:

o próprio chapéu



| mahier, 28/04 |

* * * 

sábado, 25 de março de 2017

de Eugène Ionesco




início do conto Auriflama, que deu origem á peça Amédée ou como se livrar da coisa.

do livro O Retrato do Coronel, editora Arcadia, 1963, 

* * *

quarta-feira, 15 de março de 2017

do que não se move, poema de Lídia Oliveira




primeiro, porque estou sem palavras, diante e dentro das tuas, com este carinho, esta vigilância, com a tua sensibilidade diante e dentro do mundo e das coisas. segundo, porque este é, certamente, o poema mais expressivo do que venho construindo neste espaço por "cadeira".



do que não se move

 a Vinícius Mahier, o poeta das cadeiras


somos melancólicos, amor
e sempre seremos
sentamos lado a lado
nestas cadeiras das horas
que marcam teu verso
estamos melancólicos, amor
com a pequena luz dos dias
nos alimentamos
a guerra fria está engolindo
as vozes
enquanto, sentados,
nos agarramos às cadeiras
sólidas, seguras de si
cheias de si e não de nós
a luz ofuscante invade
a sala e, por um momento,
cremos morrer lado a lado
sentados nestas cadeiras
que marcam meus versos
angústias flutuam em nossos pés
aos pés das cadeiras
que não suportamos
as luzes se apagaram, amor
e estamos melancólicos
nenhum impulso
ou movimento que nos empurre
feito estilingue
para longe destas cadeiras
cheias de si e não de nós


* * *

poema publicado originalmente no blog beija-flor-de-lis. link aqui

| Imagem: William Melton Halsey | 

segunda-feira, 13 de março de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

poema de Flávio Caamaña



um dos poemas mais importantes para minha formação enquanto agulha bêbada


do livro Aquedutos, 2016, pela Editora Patuá. 

* * *

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

demo-lição




o que esperar de uma janela
no meio de um muro
se uma janela num muro
configura parede?
mas eu não quero parede
eu quero muro e janela
um chão de janelas
com vista para o inferno.


ao guilherme
querido
guilherme



| mahier, 11/02 |

* * *

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

À mesa


Cadeiras ainda voavam em volta, 
chocando-se contra as paredes e o chão.

mohamedou ould slahi


Tudo é muito engraçado! as cadeiras quebradas, 
os móveis feitos em casa, essa festa! 
ri às gargalhadas.

bertolt brecht

rearranjar as cadeiras
depois da tortura
take a seat please
oh dear

— esta cadeira está ocupada,
senhora? —

um corpo foi implodido esta manhã
desmoronou em segundos sobre a terra
um avião explodiu em sua têmpora
em seguida outro (a mesma têmpora)
| cadeiras numeradas nos estádios |

colocar um corpo de pé
colocar um riso de pé num rosto
o riso dentro de um grito
um corpo de pé
sobre uma cadeira

um soco um tiro em nossa têmpora
o sangue vale menos que o cloro
que o expulsa e higieniza os corredores
da jurisdição diz a sentença o quê?

por exemplo, a cadeira
impossível tatear uma cadeira
impossível tatear uma cadeira
impossível tatear uma cadeira

estamos em guerra

interrompa a cicatriz do nome
ampute o sangue coagulado antes
silencie a tua prece
deus a ambos
abençoa

por exemplo, a cadeira
construída sobre as implosões
a soma alta altíssima um arranha-céu
a construção diária da arquitetura
de um corpo mais dimensionável

impossível chegar a deus subindo descalço
numa cadeira: de sapatos, no entanto,
alcança-se a lâmpada: o mesmo
se tratando não de luz e sim de topo

as cadeiras numeradas nos estádios
assistem | trêmulas: | eufóricas: | atônitas: |
a um mundo destinado às cadeiras

oh dear
take your shit please
in this country
we clean up our messes

por exemplo, a cadeira
o testemunho do outro que não pôde sentar-se
o grito numa camisa de força
as cruzes dos mortos que ali estiveram

o mundo não vale o mundo, darling
melhor dar-lhe as costas
pois nelas será inscrita a sentença

retornarás à casa em cima de uma cadeira
em cadeiras vão receber-te em lágrimas
ao centro de tudo, será servido um banquete
em seguida outro (outro país)

impossível tatear é guerra
impossível tatear é guerra
impossível tatear é guerra

que atire a segunda cadeira
aquele que disse ao condenar a primeira:

parede e chão.

rearranjar as cadeiras
para o estrangeiro
take a seat please
my friend

o mundo, darling, não vale a pena
mas a pena não existe
oh darling, o mundo é fechado

por exemplo, a cadeira
demasiado complexa
para se usá-la como exemplo

a soma alta altíssima um arranha-céu:

— esta cadeira está ocupada,
Senhor? —

para nascer, primeiro
é preciso morrer de novo.


ao anderson
criatura em itálico


| mahier, 07/02 | 

* * * 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ganchos





vi deus pendurado nos ganchos de uma palavra
eu não distingui a palavra em que vi deus pendurado
eu não suspeitei que a palavra fosse uma espécie de deus
prestes a cair, como se fosse
deus.

eu não fiquei cego ao perfurarem-me o olho
eu não percebi o meu olho ao tateá-lo com o outro
eu não suspeitei que esse olho fosse uma espécie de deus
prestes a me pendurar, como se fosse
deus.



| mahier, 01/02 |

* * *

domingo, 15 de janeiro de 2017

flâneur



um cigarro
antes do bombardeio
cadeiras despencam
do quadragésimo andar
(não é um poema descritivo
eu não observo
eu não observo)
há uma guerra
de pessoas comuns
dentro da minha cabeça
e nenhuma delas
me deixa falar
cadeiras despencam
do viaduto
eu não observo
eu não observo
não é um poema descritivo
há uma guerra de deuses
sobre a minha cabeça
e nenhum deles
me toma o cigarro
cadeiras despencam
do chão.


| mahier, 15/01 |

* * *

respeitável públlico!



ordem no tribunal.



| mahier, 15.01 |

* * *


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

poema

tela de joão trevisan 


foi dito, em cima
de uma cadeira,
que uma cadeira
não suportaria outra.
foi dito a uma
cadeira, ou outra,
que uma cadeira
não suportaria
tampouco a si.
foi dito, em cima
de uma cadeira,
que essa cadeira
sequer suportaria
a pronúncia da
palavra cadeira.
foi dito a essa
cadeira, ou outra,
que os ombros
suportam o mundo
enquanto ela
subcutânea
mal suporta
os casacos.


| mahier, 14/01 |

* * *