sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

tragédia




qualquer que seja
a fisionomia
é a busca pela textura
que me impele
a percorrer
a imobilidade
destas paredes
qualquer que seja
a imobilidade
das mãos
é claro que o olho
é uma ênfase
desnecessária
e os pés uma sinédoque
sem rumo
quaisquer que sejam
as águas os cacos
o despenhadeiro
de todo modo
o espelho
não substitui o avesso
a hipótese do sangue
submerge a pele
desta distância
em que me percorro
pelo que posso observar
do teu olho
teu olho observa
o atrito
desta distância
(teu olho
é uma pálpebra fechada
esperando
romper
na carne do olho
a carne irreflexa
do meu)
é claro que o corpo
é um estado de guerra
e entre pálpebra
e olho
espaço sem lado
entre olho
e pálpebra
é a busca pelas paredes
que me impele
a percorrer
a imobilidade
desta textura
quaisquer que sejam
as articulações
do concreto
de todo modo
o avesso
não substitui o espelho
que a tua máquina
de guerra me desmorone
que a tua máquina
do mundo
me despedace
ou que alguma tartaruga
altissime, omnipotens,
bone domine
seja docemente
arremessada
na minha cabeça.



| mahier, 08 de dezembro |

* * *

domingo, 15 de outubro de 2017

começo



em que pese o muito
dessa palavra
escassa,

sobretudo o quase
dessa palavra
escassa,

vez por outra o vulto
dessa palavra
escassa,

de tal sorte a posse
dessa palavra
escassa,

no entanto a salvo
dessa palavra
escassa,

muito embora
isto.



| mahier, 15 de outubro |

* * *


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

entre




I.

vários degraus de uma só vez
a obrigação de uma porta
deslocar a direção dessa porta
mastigando os olhos e as paredes.

II.

diante enfim da porta infalível
recuar à obrigação de uma porta
empunhando os olhos e as paredes
vários degraus de uma só vez



| mahier, 12 de outubro |

* * *

terça-feira, 10 de outubro de 2017

post scriptum




na melhor das hipóteses
é apenas um corpo

palavra sem rosto
entre a voz e o rosto

na melhor das hipóteses
é apenas a véspera

é o cigarro na boca
colado à saliva

é ainda manhã
na melhor das hipóteses

é ainda a hipótese
de alguma palavra

palavra impossível
morta a pauladas

na melhor das hipóteses
é apenas rascunho

é o corpo partido
em duas esperas

é o rosto de kafka
tatuado nas costas

na melhor das hipóteses
é ainda este fósforo

não adianta ler beckett
não importa ter osso

é ainda o clarão
de tanta atrofia

na melhor das hipóteses
a pior das hipóteses

é ainda uma hipótese
              qualquer

é um corpo que cai
no limite da queda

construir o limite
e despovoá-lo

na melhor das hipóteses
não altera o avesso

na melhor das hipóteses
é ainda o cigarro

este fogo terrível
roubado do fogo

na melhor das hipóteses
é ainda esta pálpebra

ou quem sabe
anoitece


| mahier, 10 de outubro de 2017 |

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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

acomodar-se




um corpo de encontro à queda.

uma cadeira de encontro ao corpo.

o corpo fracassa enquanto destino.

a cadeira fracassa enquanto chão.



| mahier, 05/09 |

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

os olhos e a boca




que olho o olho espreita
dentro do teu riso?

que mandíbula se quebra
em tuas órbitas vazias?

) o trágico da tua retina
é o cômico da outra (

os olhos, tua cegueira,
tateiam as pálpebras

dentro da tua mandíbula
o riso mastiga os dentes.



| mahier, 23/06 |

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domingo, 28 de maio de 2017

gênesis





multiplicai-vos
enchei a terra e dominai
sobre todas as pernas que se arrastam.

(no sétimo dia,
dobrou os joelhos)



[mahier, 28/05]

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sábado, 27 de maio de 2017

Babel




quarenta cadeiras
vazias para
godot:

montanhas-pedras
à espera de um sísifo,
quarenta:

umas sobre
as outras,
vazias:

a última
em queda livre

a primeira
fincada no chão.



[mahier, 28/05]

* * *

sexta-feira, 28 de abril de 2017

nas pontas dos dedos





ninguém
conseguiu

assomar
ao sapato

o próprio
sapato

a fim de
alcançar

no topo
do osso

o próprio
chapéu



| mahier, 28/04 |


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sábado, 25 de março de 2017

de Eugène Ionesco




início do conto Auriflama, que deu origem á peça Amédée ou como se livrar da coisa.

do livro O Retrato do Coronel, editora Arcadia, 1963, 

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quarta-feira, 15 de março de 2017

do que não se move, poema de Lídia Oliveira




primeiro, porque estou sem palavras, diante e dentro das tuas, com este carinho, esta vigilância, com a tua sensibilidade diante e dentro do mundo e das coisas. segundo, porque este é, certamente, o poema mais expressivo do que venho construindo neste espaço por "cadeira".



do que não se move

 a Vinícius Mahier, o poeta das cadeiras


somos melancólicos, amor
e sempre seremos
sentamos lado a lado
nestas cadeiras das horas
que marcam teu verso
estamos melancólicos, amor
com a pequena luz dos dias
nos alimentamos
a guerra fria está engolindo
as vozes
enquanto, sentados,
nos agarramos às cadeiras
sólidas, seguras de si
cheias de si e não de nós
a luz ofuscante invade
a sala e, por um momento,
cremos morrer lado a lado
sentados nestas cadeiras
que marcam meus versos
angústias flutuam em nossos pés
aos pés das cadeiras
que não suportamos
as luzes se apagaram, amor
e estamos melancólicos
nenhum impulso
ou movimento que nos empurre
feito estilingue
para longe destas cadeiras
cheias de si e não de nós


* * *

poema publicado originalmente no blog beija-flor-de-lis. link aqui

| Imagem: William Melton Halsey | 

segunda-feira, 13 de março de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

poema de Flávio Caamaña



um dos poemas mais importantes para minha formação enquanto agulha bêbada


do livro Aquedutos, 2016, pela Editora Patuá. 

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